Fotos de Carla Freire
segunda-feira, 14 de setembro de 2009
Os Amigos
Os Amigos
no regresso encontrei aqueles
que haviam estendido o sedento corpo
sobre infindáveis areias
tinham os gestos lentos das feras amansadas
e o mar iluminava-lhes as máscaras
esculpidas pelo dedo errante da noite
prendiam sóis nos cabelos entrançados
lentamente
moldavam o rosto lívido como um osso
mas estavam vivos quando lhes toquei
depois
a solidão transformou-os de novo em dor
e nenhum quis pernoitar na respiração
do lume
ofereci-lhes mel e ensinei-os a escutar
a flor que murcha no estremecer da luz
levei-os comigo
até onde o perfume insensato de um poema
os transmudou em remota e resignada ausência
*Al Berto - 'Sete Poemas do Regresso de Lázaro'
Foto de Carla Freire
domingo, 13 de setembro de 2009
Convite
CONVITE
Não sou a areia
onde se desenha um par de asas
ou grades diante de uma janela.
Não sou apenas a pedra que rola
nas marés do mundo,
em cada praia renascendo outra.
Sou a orelha encostada na concha
da vida, sou construção e desmoronamento,
servo e senhor, e sou
mistério
A quatro mãos escrevemos este roteiro
para o palco de meu tempo:
o meu destino e eu.
Nem sempre estamos afinados,
nem sempre nos levamos
a sério.
Lya Luft
Foto de Carla Freire
Simplicidade, Felicidade
Guilherme de Almeida
Simplicidade...simplicidade...
Ser como as rosas, o céu sem fim,
a árvore, o rio...Por que não há de ser toda gente assim?
Ser como as rosas...bocas vermelhas
que não disseram nunca a ninguém
que tem perfumes...Mas as abelhas
e os homens sabem o que elas têm!
Ser como o espaço, que é azul de longe,
de perto é nada...Mas quem o vê
- árvores, aves, olhos de monge... -
busca-o sem mesmo saber por quê.
Ser como o rio cheio de graça,
que move o moinho, dá vida ao lar,
fecunda as terras...E rindo, passa,
despretencioso, sempre a cantar.
Ou ser como a árvore: aos lavradores
dá lenha e fruto, dá sombra e paz:
dá ninho às aves; ao inseto, flores...
Mas nada sabe do bem que faz.
Felicidade - sonho sombrio!
Feliz é o simples que sabe ser
como o ar, as rosas, a árvore, o rio:
simples, mas simples sem o saber!
Foto: Carla Freire
Se por acaso
Alice Ruiz
Se por acaso
a gente se cruzasse
ia ser um caso sério
você ia rir até amanhecer
eu ia ir até acontecer
de dia um improviso
de noite uma farra
a gente ia viver
com garra.
Eu ia tirar de ouvido
todos os sentidos
ia ser tão divertido
tocar um solo em dueto
Ia ser um riso
ia ser um gozo
ia ser todo dia
a mesma folia
até deixar de ser poesia
e virar tédio
e nem o meu melhor vestido
era remédio.
Daí vá ficando por aí
eu vou ficando por aqui
evitando
desviando
sempre pensando
se por acaso
a gente se cruzasse...
Fotografia de Carla Freire
Quando as crianças brincam

Fernando Pessoa
Quando as crianças brincam
E eu as oiço brincar,
Qualquer coisa em minha alma
Começa a se alegrar.
E toda aquela infância
Que não tive me vem,
Numa onda de alegria
Que não foi de ninguém.
Se quem fui é enigma,
E quem serei visão,
Quem sou ao menos sinta
Isto no coração.
Fotografia d Carla Freire
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